Cartas a um jovem calvinista

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Por Daniel Figueiredo

A tradição Reformada, ou Calvinista, tem ganhado força no meio evangélico, especialmente entre jovens, por influência de nomes como John Piper, Tim Keller, Augustus Nicodemus e Franklin Ferreira. E é interessante ver que não apenas presbiterianos e reformados, mas batistas, pentecostais e irmãos de diversas denominações têm passado a se identificar como Calvinistas, na maioria das vezes tendo como ponto de partida os famosos “5 pontos”, também conhecidos como TULIP, que se referem à perspectiva calvinista da doutrina da salvação e eleição. Nós mesmos, que escrevemos aqui no Coruja, nos encaixamos nessa descrição: somos de uma igreja Batista tradicional, mas não reformada, e com o passar do tempo passamos a nos identificar com a fé reformada, começando pela doutrina da eleição e aos poucos assumindo uma proporção mais abrangente.

Nesse cenário, a leitura do livro “Cartas a um jovem calvinista”, de James K.A. Smith, vem em boa hora. Como o título informa, o livro é organizado em forma de cartas, endereçadas ao personagem fictício Jesse, um jovem que cresceu em um ambiente pentecostal e passou a se interessar pelo Calvinismo (e que o autor reconhece ser também uma figura dele mesmo quando jovem). Jesse passa por questionamentos que muitos de nós, os “novos calvinistas”, experimentamos hoje – porque os outros irmãos não têm esse mesmo entendimento teológico? O que fazer se minha igreja não ensina teologia reformada? Qual a melhor forma de espalhar as “boas novas” que descobri? –  aos quais o autor busca responder de forma gentil e didática, mas não sem algumas broncas. O formato e a linguagem do livro tornam a leitura bastante agradável (eu o li, literalmente, da noite pro dia) e ao mesmo tempo desafiadora, pelo tom pessoal e prático com que os temas são tratados. Entre os ensinamentos contidos na obra, quero dar destaque a 4 pontos.

1. O calvinismo não deixa espaço para orgulho. É comum ver novos calvinistas imersos em discussões na internet, postando memes que zombam dos “rivais” arminianos  e demonstrando insatisfação em suas igrejas locais. Por mais que haja um espaço para o debate, o humor e o confronto de erros, a verdade é que muitas vezes esse zelo vem carregado de arrogância e soberba por aquilo que acabamos de descobrir e receber… de graça. E embora o orgulho seja algo errado para qualquer cristão, esse tipo de postura se torna especialmente contraditória quando se trata de uma doutrina que reconhece a nossa própria depravação e atribui a sua salvação exclusivamente à graça de Deus, sem nenhuma contribuição significativa do homem. Não é à toa que autor do livro repreende duramente o jovem Jesse quando este demonstra um rancor em relação aos seus irmãos da igreja local e se considera “reformado demais” para estar ali. Não que não haja casos em que uma mudança de compreensão teológica seja motivo adequado para alguém considerar a possibilidade de mudar de igreja – em certas ocasiões isso é de fato a melhor coisa a se fazer. Mas é importante avaliarmos nossas próprias motivações e ver se não há ali a semente do orgulho, que nos faz desprezar os irmãos que ainda não alcançaram aquele “conhecimento especial”. Como posso me orgulhar de algo que me foi dado de graça, e me achar superior aos demais irmãos que foram alcançados pela mesma graça? Como posso me considerar um cristão reformado se me esqueço que até mesmo a fé, que é o meio pelo qual somos salvos, nos é dada por Deus, “para que ninguém se glorie”(Efésios 2.8-9)?

2. O calvinismo vai além dos 5 pontos. Apesar de a maioria de nós conhecer o Calvinismo a partir da doutrina da eleição e predestinação apresentada nos 5 pontos, ou TULIP, essa é apenas uma pequena (mas importante) parte do sistema abrangente que é a tradição reformada. Em seu famoso livro Calvinismo, Abraham Kuyper apresenta não apenas uma soteriologia, mas uma visão do mundo e da vida, o que chamamos de cosmovisão. A fé reformada tem algo a dizer não apenas sobre quem e como Deus salva, mas sobre todas as áreas da vida, sobre as quais Cristo é senhor e soberano. Dessa forma, Smith resume o Calvinismo à palavra Graça, não apenas compreendida no contexto da salvação pessoal, mas estando presente desde a criação – o simples fato de Deus criar o mundo e o homem é um grande ato de graça, pois ele não precisava de nós e não nos deve nada. Tudo foi criado, é sustentado e será restaurado pela graça de Deus. Essa compreensão da criação, além de fornecer uma visão mais ampla da realidade, nos livra de uma espiritualidade gnóstica, que enxerga tudo aquilo que é material e terreno como essencialmente mau, e busca a redenção como uma fuga de tudo o que é “mundano” em direção a uma realidade superior e totalmente desconectada do mundo em que vivemos. Portanto, o cristão reformado é livre para desfrutar da graça comum de Deus no trabalho, na arte, na ciência e no lazer, a medida em que a criação de Deus, e até mesmo as obras dos homens, podem expressar traços da criatividade e beleza do próprio Senhor. Mais do que isso, o cristão reformado é desafiado a se envolver em sua vocação “secular” e glorificar a Deus com os pés no chão e a mão na massa, combatendo a influência do pecado em cada uma das áreas do desenvolvimento humano e obedecendo ao chamado de “cultivar e guardar” (Gênesis 2.15) a terra em que Deus nos colocou.

3. O calvinismo se expressa em duas ramificações históricas. Um dos pontos mais interessantes do livro é a distinção que Smith faz entre as duas principais correntes da tradição reformada, não muito conhecida da maioria de nós. Existe uma corrente Anglo-Saxônica, mais precisamente originada na Escócia, e uma tradição continental, que tem como principal berço a Holanda. A tradição escocesa é representada pela Confissão e Catecismos de Westminster, e enfatiza a salvação pessoal e a vida na igreja. Já a tradição holandesa tem como símbolos a Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e os Cânones de Dort (de onde vêm os famosos 5 pontos do calvinismo), e traz uma ênfase mais abrangente na soberania de Deus não apenas na salvação pessoal, mas em todas as áreas da vida. Isso resulta em uma visão bastante peculiar a respeito do relacionamento do cristão com a cultura, levando em conta que Deus está redimindo toda a criação em Cristo (Colossenses 1.20). O convite de Smith em direção à tradição holandesa é pertinente ao nosso contexto brasileiro, em que a maioria de nós está mais familiarizado com a tradição de Westminster, em geral representada pela Igreja Presbiteriana do Brasil. A leitura de Abraham Kuyper, Herman Dooyeweerd e Herman Bavinck é de grande valor para um entendimento dessa vertente. Por outro lado, me parece que o autor foi duro demais em suas críticas à visão mais “restrita” apresentada pela tradição escocesa, de modo a acentuar, talvez mais do que o necessário, uma oposição entre as duas correntes reformadas.

4. O calvinismo reconhece a catolicidade da igreja. Esse é talvez um dos pontos em que o autor poderia ter sido mais cuidadoso ao descrever. Explico: o termo “catolicidade”, ou “católico”, em seu sentido puro – e na forma em que aparece no Credo dos Apóstolos – se refere não ao  Catolicismo Romano, mas ao caráter universal da Igreja (o livro apresenta essa nomenclatura sem oferecer uma noção mais clara das distinções e limites entre a fé reformada e o catolicismo romano, o que pode causar algumas confusões desnecessárias). Em outras palavras: a Igreja de Cristo em todos os lugares e épocas é uma, mesmo que se expresse em diferentes contextos, tradições e congregações locais. Se por um lado o Catolicismo Romano atribui a catolicidade necessariamente a uma unidade institucional junto à tradição e ao magistério, o Calvinismo entende que essa unidade se dá de forma orgânica e não está identificada com uma ou outra tradição ou instituição. Crentes reformados, luteranos, pentecostais, brasileiros, asiáticos, europeus, em todos os lugares e épocas, são parte da mesma família e têm muito a aprender uns com os outros. Sendo assim, o correto entendimento da catolicidade da Igreja conduz a um reconhecimento de que a Igreja de hoje não é um fenômeno isolado, mas inserido em uma narrativa histórica, de modo que a tradição e o ensino dos crentes do passado são dignas da nossa atenção e respeito, contanto que as Escrituras permaneçam como autoridade superior e revelação suficiente de Deus. Esse tipo de respeito ao passado e à tradição ainda é bastante impopular nos dias de hoje, devido à influencia do esnobismo cronológico do Iluminismo e ao individualismo da nossa cultura, que produz em muitas igrejas uma ênfase de aparente piedade do tipo “queremos apenas Jesus, não precisamos de tradição, confissões e credos” – declaração que, por si mesma, já constitui um credo e uma tradição.

Em linhas gerais, o livro é excelente, a leitura é agradável e o conteúdo é bastante rico, ainda que introdutório. Mas não espere do livro uma exposição minuciosa da teologia reformada ou uma defesa teológica do calvinismo. Na verdade o autor pressupõe que o leitor já tem pelo menos alguma familiaridade e interesse pela tradição reformada, ao mesmo tempo em que explica vários pontos básicos que são frequentemente esquecidos pelos “novos calvinistas”. Os pontos negativos são o descuido em relação à ênfase ecumênica no tratamento da catolicidade da igreja, como já foi dito, e em alguns detalhes semelhantes – há um trecho, por exemplo, em que Smith sugere que a sujeição da mulher ao homem é exclusivamente fruto da queda e portanto não seria um princípio válido para hoje, o que é uma afirmação seriamente questionável, e que faria muitos reformados mais conservadores levantarem as sobrancelhas (inclusive as minhas). Mas tendo consciência de que que nem tudo no livro deve ser plenamente aceito (na verdade isso vale para qualquer livro sobre qualquer assunto), a leitura é bastante enriquecedora e divertida, especialmente para aqueles que estão tendo seus primeiros contatos com a fé reformada.

* Nosso amigo Allen Porto também escreveu uma resenha do mesmo livro, que está disponível na biblioteca da Congregação Presbiteriana da Cohama, em São Luís.

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